sexta-feira, 4 de maio de 2007

Delírios ou realidade

Acontece muitas vezes a quem tem muita febre começar a delirar. Pensar coisas sem sentido, ouvir muito barulho quando está tudo em silêncio, alucinar, desde situações extra-corporais a outras mais, err, corporais. Enfim, há de tudo. Mas até terça-feira, eu nada sabia sobre este tipo de fenómenos, era tipo física quântica, muita teoria, pouca prática.

Ora bem, terça-feira tive o meu primeiro delírio.

Yupi, pensam vocês, conffetis para o ar, pára tudo, feriado nacional, isso deve ter sido fantástico pá!

Não meus amigos, não foi. E eu explico.
Porque a nossa mente tem imensas manhas, é do piorio. Leva a nossa imaginação bem atrás, àquelas coisas que tão cedo não queremos recordar, ou que queremos mesmo esquecer. Foi o que me aconteceu. E foi tão real que até assusta, e que ainda hoje estou um bocado estranha, irritadiça, melancólica, a precisar de prespectiva e compreensão.

Por momentos, meia a dormir meia acordada, sonhei ou pensei ou sei lá o que fiz, com uma parte de mim que não vinha ao meu eu-consciente há já uns mesinhos. Voltou tudo, e era tão real. Estava ali, e eu sabia que já tinha vivido aquilo, mas não fazia mal, porque até já sabia como acabava, e era bom, e eu tinha tantas saudades, tantas. E era bom, já tinha dito como era bom? Era familiar, o saber de cor, tudo, alma e corpo num só. Era parte de mim.
Senti tudo de novo, vi tudo de novo, meses, anos, tudo compilado na minha alucinação. O tempo não era real, era uma espécie de fast forward, tudo à velocidade da luz (pronto ok, não os 3 vezes 10 elevado à oitava potência, mas estava bem lá pertinho...). O riso, o toque, o cheiro. Jesus, o cheiro, entranhado em mim, como se nunca tivesse saído.

Fod***e.

Momentos pequeninos, por vezes segundos, outras vezes tardes, apareceram todos para jantar na minha alucinação. E sentaram-se todos à mesa para me atormentar. E não me deixar dormir. E fazer o termómetro digital chegar quase aos 40ºC.

Levantei-me da cama, a minha irmã perguntou-me se eu estava bem mas nem devia estar bem acordada. Eu disse que sim, que só precisava de ir à janela. Ela nem achou estranho, visto que era de noite, não se via nada, eu estava a suar, com a camisa do pijama aberta e estavam paí uns 6ºC lá fora (Mafra City amigos, já se sabe, é o Pólo Norte), virou-se para o outro lado e adormeceu. Enfim.
Levantei-me, fui à janela, sentei-me no chão. Isto lembro-me. Lembro-me também do imenso barulho que ouvia, tipo trânsito em Nova Iorque, aquele som que não se percebe o que é, tipo avalanche. Ouvia isto apesar de estar tudo em silêncio, só se ouviam os grilos e os roncos do pai no quarto ao lado. E ele não faz assim tanto barulho. Gosto muito de ti paizinho, sim? Pronto.

Sentei-me no chão, e começou a doer muito cá dentro, naquele lugar nosso, no meio do peito, onde guardamos o que é bom. Porque assim como veio, também se foi. E eu ali já estava acordada. Completamente em chamas, com 40ºC, mas acordada. Penso eu. E só me queria agarrar àqueles momentos que tinha vivido ou sonhado. Porque eram reais. Porque eram bons, porque é aquilo que eu mais quero na vida, porque não vivo sem...

Não, eu vivo sem, há já muito tempo. Não fazia sentido, eu estava ali sentada no chão, nada daquilo se tinha novamente passado, ele não estava novamente ali. Os beijos não se tinham dado, não estava ali ninguém, tudo o que vivi era só a minha imaginação a pregar-me partidas estúpidas. Eu não estava feliz outra vez. Estava outra vez, eu. Apenas eu.

Pensava eu que tinha ultrapassado, crescido, aprendido e andado para a frente. Oh babe, estás tão enganada, isso tudo está apenas lá atrás, no sótão, a um cantinho. Pelos vistos, eles têm razão, bem me avisaram sobre isto e eu sempre na minha, sempre a dizer que não, que estava bem, que já não era nada. Pelos vistos têm razão, ainda me assombra. E muito. Quando será que isto acaba, esta saudade, este recordar que me tira o fôlego e o sono, me põe doente e em extâse ao mesmo tempo, ao relembrar?

E até que ponto é que quero mesmo que acabe?

5 comentários:

Morsa disse...

Eu aposto na realidade!

A vida pode ser uma grande merda quando nós não sabemos o que fazer ou para que lado nos virar. Apesar de tu teres sarna com que te coçar... Entre 8 cadeiras, emprego, tuna (já te vi ao vivo mais que uma vez... e à tua mana tb já agora...) e um blog mantido com momentos de brilhantismo (li-o todo de uma penada... eu disse que voltava). Ainda assim és humana, tens momentos em que estás em baixo e momentos em que estás mais sensível! Momentos como aquele em que passaste a caloira da tuna! Ou na vez em que chumbaste por 6 décimas a uma cadeira que eu nunca vou perceber o que trata!

Por isso és tão diferente da tua irmã mas ao mesmo tempo tão igual! Por isso podes tornar-te tão especial quanto quiseres ser... Desde que o queiras!

Beijinhos de melhoras e vê lá se desta não passas a carraspana à tua mana :)

code disse...

O passado que nos marca não se esquece facilmente e talvez não se deva mesmo esquecer.

Acho que deves olhar para trás com uma certa alegria interior por teres vivido momentos que foram bons para ti naquela altura, recordá-los faz bem, pois é a soma desses momentos que acaba por dar significado à nossa vida.

Não tenhas medo dessas recordações, não te sintas infeliz por não sentires o mesmo actualmente, interpreta-os como um parágrafo feliz de uma vida que valerá pelo seu todo, desde o prefácio até ao último caracter, ainda vais no inicio do livro, demasiado cedo para ficares presa a um dos poucos parágrafos anteriores, fica antes ansiosa pelos vários capítulos que ainda vais viver e que te trarão mais alguns capítulos que poderão ser tema duma próxima alucinação.

Conhece o caminho por onde chegaste até aqui, sente o resto da estrada até ao horizonte da tua vida.

Forte abraço, um beijo de compreensão e uma lágrima alucinada :),
André.

Sofia Paixão disse...

Epah mais fantastico que as alucinações da Isabel só mesmo alguém que já me tenha visto a actuar com a Barítuna. Com a frequência com que isso acontece é quase tão emocionante como ver o cometa Haley. Um bem haja Morsa

Anónimo disse...

Antes de mais tenho que te dizer que escreves muito bem!:) Agora em relação a este post… coisa complicada. E posso dizer isso, porque já passei pelo mesmo, toda a gente passa, eu acho! Tenta falar com a pessoa que te causa esses “delírios”, comigo resultou… Não ficámos juntos, mas ajudou a passar! Sabes lá se ele não está na mesma situação que tu e á espera que lhe digas algo?

Beijinho e boa sorte! ;)

Isabel Paixão disse...

Morsa: Obrigada pelas palavras, pelos elogios ao blog; confesso que há posts que me tocam muito, o que passei a caloira da tuna é um deles; pelas palmas que espero que tenhas batido a mim e à minha irmã e respectivas tunas em palco, e pelas melhoras que me desejas.
Ler incentivos e prespectivas de quem está de fora ajuda muito. Ao fim ao cabo, é mesmo por isso que escrevo no blog. Para ter prespectiva. Obrigada.

Code: aceito o beijo, e a lágrima alucinada ainda mais. Sempre bom ler o que escreves. O mesmo para ti, mas sem lágrimas, antes um sorriso.