sexta-feira, 6 de abril de 2007

Existir

Revolta. Sentir que não se pertence a lado nenhum. Que se vive contrariada. Que a vida não significa nada. Que o simples acto de existir perdeu o interesse. Dormir. Quando se dorme, não se pensa em nada, é tudo perfeito no mundo dos sonhos. Eu sou perfeita nos meus sonhos, e a minha vida também. Naquelas horas, não há dor, nem frustração, nem responsabilidades. Naquelas horas, só interessa estar sossegada, quieta, e sonhar, alto.
À minha volta o mundo gira em torno de si próprio. Cada pessoa dá graças por respirar cada dia, e por ter saúde, e amigos e isso. Mas para mim, isso não chega, porque o vazio é tão grande que isso sabe a pouco. A familia sofre, os amigos perdem a paciência, e tu afundaste ainda mais. A fossa não é um sitio giro para se estar. Fala a experiência. Os amigos não querem ser arrastados para o lado negro da vida, para esse vazio, para a depressão. Acabam por apenas ser condescendentes, e não amigos, acabam por dizer apenas o que queremos ouvir, e não o que precisamos que eles nos digam. O caminho a seguir. Acho que vem assim tipo luz, um belo dia acorda-se de manhã e puff, já saiste. Mas até lá penas, e penas muito. As coisas que mais gostas começam a perder o interesse, já nem a borga e as saidas te curam o mau humor. Já nem aquele beijo ou aquele abraço te entusiasma tanto como antigamente. Começas a deixar de querer estar com as pessoas que mais gostas, com medo do que elas vão dizer. A critica dos amigos é forte, dói. Começas a pensar que só fazes mal aos outros, porque só atrais vazios, buracos negros de depressão, que arrastam tudo à sua volta. E eles dizem que não és assim. E tu não acreditas.

Deixas de pensar que tens valor. Importância é apenas para os outros, para ti não. Se morresses o mundo nem sentiria a tua falta. Os amigos, a familia, haviam de ultrapassar. E tu já não sentias nada, vazio, dor, depressão, angústia. Sentimentos idiotas que sentimos todos de uma vez, e que não conseguimos explicar porquê. Porque somos infelizes? Não. Porque ninguém gosta de nós? Não. Porque não nos sentimos bem com as nossas opções de vida? Também não. Porquê então? Não sei... Só sei que dói, muito, cá dentro. E a dor não vai embora, fica para atormentar. Mas dói porquê, alguém te fez mal? Também, mas quem é que nunca foi magoado? Então mas o que é que se passa, aconteceu alguma coisa? Não, apenas constatei a anedota sem piada da existência. Respirar é simples. O resto não. Viver cansa. Demasiado. Mudanças, adaptações, regidos por estas normas darwinistas que eu não entendo. Não me adapto, não consigo. Não me dou bem com mudanças. Nem com elogios. Quando me querem mostar que valho alguma coisa, que sou realmente importante. Não acredito. Pois é um pensamento já entranhado em mim, muitos anos.

E depois vem a revolta. Revolta por nos sentirmos assim. Por não conseguirmos controlar as lágrimas a cada dia que passa. Por não conseguir disfarçar a dor que nos corrói cá dentro. A máscara que tantas vezes usámos, e que sempre nos safou, desta vez não funciona. Talvez não tenha sido máscara, se calhar até eras mesmo tu, num periodo bom, com gozo, prazer no que fazias. Eras tu, penso eu. Era eu. Mas agora não sou. E como vi tanta coisa boa nesse periodo, e conheci tanta gente boa e fiz tanta coisa boa, agora dói muito voltar ao velho eu, porque já não vejo, já não me interessa fazer, e de certeza que vou perder quem conheci.

E é a isto que eu chamo existir (mal).

1 comentário:

code disse...

Percebo muito bem o teu sentimento (ou pelo menos a sua interpretação para mim).

No mundo actual sinto que sofro um processo lento, mas constante e implacável, que vai, a pouco e pouco, baixando o nível de possibilidade de realização dos sonhos e dos projectos que tinha para mim. E é também, dessa forma gradual, quase imperceptível, que também vou readaptando esses mesmos sonhos, vou torná-los mais racionais, mais realistas... menos sonhos. E perco o seu significado, a sua importância e o seu sentido, perco o que tento procurar, mas sabendo que não alcanço não desisto... mas vou desistindo... perco a tal luz, e vou-me limitando a existir... perco-me a mim próprio, porque o meu objectivo não é existir, mas o sonho que apesar de ser utopia é o meu verdadeiro eu.

Acredita! e quanto mais impossível for o sonho, mais perto estarás de seres tu!

Abraço,
André Pinto.