quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Metereologia

Este frio congela o cérebro.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

É isto

Amor é fazer companhia ao telefone durante uma viagem de autocarro de uma hora, sem sequer ser preciso pedir. Não ando sozinha. Mesmo que pareça, estou sempre acompanhada. E sabe tão bem saber que não se vai a lado nenhum.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

às vezes gostava de ser diferente, pensar de maneira diferente, falar de maneira diferente. Pois sinto que como sou já não chega para ti. Para ti. Para todos. E era tudo muito mais fácil sendo diferente. Doía menos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ano novo, vida nova

O que fazer quando se chega a um ponto em que não se consegue mais andar para a frente? Aquele ponto de não-retorno?
Quando tudo na nossa cabeça se amontoa, em locais onde não se deve amontoar nada, onde deveria estar tudo muito direitinho. Quando até respirar se torna uma tarefa árdua, e dormir o dia inteiro na nossa cama, onde nos sentimos bem e confortáveis, é uma tentação. E se vê as horas, os dias e os anos passar por nós sem nos tocar.
Quando se vai numa direcção que não se quer, a ser uma pessoa que não se gosta, e a pensar em coisas que não se deve. Quando se sente um bloqueio naquilo que que se quer um dia ser, uma montanha enorme para escalar e chegar aonde se quer ir. Quando se navega num deserto emocional há uns anos, a fugir ao carácter social da vida para nos perdermos em locais que são confortáveis, por medo, ou por conforto, ou porque nos esquecemos do que é arriscar sair da nossa concha e experimentar o mundo, com tudo o que ele tem para dar. Quando se dá tudo o que se tem a um ideal, a um objectivo, e não resta nada para nós. E para quem gosta de nós.

O que fazer? Como sair deste ciclo? Como fazer para nos mantermos fiéis ao compromisso que é assumido, sem nos perdermos no processo? Como é que se conjuga tudo? Como é que se é feliz, quando a vida nos é sugada por um ideal que, se calhar, é areia a mais para a nossa camioneta?

Os nossos pais pensam sempre que nós somos as pessoas mais dotadas do mundo. As mais inteligentes. Que vamos ser todos milionários e extremamente bem sucedidos no que quer que escolhamos fazer. Os nossos amores pensam que somos fantásticos, as melhores pessoas do mundo, e que tudo o que sai da nossa boca é digno do Nobel. Os nossos amigos pensam que trabalhamos imenso, coitados de nós, mas continua que um dia, vais ver, vais chegar ao fim. Então porque é que nós, quando nos olhamos ao espelho, nos sentimos estúpidos, idiotas, burros, inferiores? Como é que voltamos a estar em controlo de nós próprios? Como é que voltamos a ter a vida que nos (que nos é) sugada aos bocadinhos, como que por uma palhinha, deixando apenas um resto, um embrulho, daquilo que éramos antes? Como é que começamos de novo?

Onde é que deixámos de ter controlo? Como é que isso aconteceu? Quando é que a nossa auto-estima nos saiu das mãos? E por obra de quem?

Como corresponder a quem gosta de nós, se o que somos é apenas o que resta do que fomos um dia? Será que cá dentro ainda somos nós? E se nos encontrarmos, um dia, como fazemos para não nos perdermos de novo?

Não sei a resposta a nenhuma destas perguntas. Mas a minha resolução de ano novo, é descobri-las.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Estados evolutivos

"Já domino os sentidos, cada um individualmente.
A imagem já não me impressiona, o som também já não me deita abaixo.
Hoje arrisquei o cheiro e tudo não passou de uma lembrança.
Já domino os sentido individualmente."
Ficou por momentos sem ar quando juntou a imagem ao cheiro, mas admito que possa ter sido da gripe. Ou do perfume ser muito bom.

Porque Moçambique não é assim tão longe

"Se cuidas de mim eu…
eu cuido de ti também
Dentro da minha mão
eu guardo-te bem
Se amarmos do principio
se perdermos tudo outra vez
vou marcar-te bem
como um sonho vão
dentro da minha mão


Se cuidas de mim
eu cuido de ti também
Se vens em paz
eu venho por bem
Se formos bebendo o chão deste caminho
vou guardar-te bem
agora que sei
que não vou sozinho.


por isso vem…
Há uma praia depois sombra
uma clareira para iluminar
Há um abrigo no meio das ondas
tudo é caminho para iluminar
Por isso vem."


Para a Filipa Mesquita

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Notícias de um outro Carlos

O escultor da vida

Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia-noite.

É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje.

Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição.

Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício.

Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo.

Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido.

Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho.

Posso sentir tédio com as tarefas da casa ou agradecer a Deus por ter um teto para morar.

Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades.

Se as coisas não saíram como planejei, posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar.

O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser.

E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma.

Tudo depende só de mim.”

Charles Chaplin

Saudades do Carlos.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Tempos verbais

"Já não és o que podias ter sido, mas somente o que foste.
E mesmo isso um dia vais deixar de ser."
E é assim, mais nada, amanhã é outro dia.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Não mais, Ary.

"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Dezembro

Ora está quase a acabar a primeira leva de frequências deste semestre, que bem vistas as coisas e comparando com os meus anos de Técnico, até nem correram tão mal como normalmente correm. Sou pessoa de me sair terrivelmente mal nas frequências e safar-me mais ou menos em exame final. Mas mesmo assim, não foi desastroso.

Está também a acalmar o periodo de actuações em Tuna. Ora Lisboa (várias), Braga, Coimbra e Açores, este último fim de semana, deram cabo dos meus pés (sapatos apertados!), do meu traje, que precisa urgentemente de ser mandado limpar, das minhas horas de sono. Paciência.

Recebi a noticia que vou ter mais uma cadeira no plano curricular... essas "adições" aumentam o número de cadeiras que me faltam para acabar o curso, obrigada senhores do Técnico, fico muito agradada por gostarem assim tanto de mim que não me querem deixar ir embora. Mas os meus pais ficavam agradecidos se deixassem de pagar propina aos senhores. Sim, porque aquela organização é tão boa, que existe lá no site um sitiozinho todo catita onde cada aluno pode consultar quando já pagou à faculdade, entre propinas e outras coisas. E a minha "contribuição" já dava direito a uma estátuta. Assim de tamanho médio. Em mármore.

Soube também que tenho mais umas amigas "em estado de graça", os respectivos rebentos esperam-se para 2011. Deve estar na moda a procrição em 2010, nova tendência Outono-Inverno, mas como ando alheada não me dei conta, mas tudo bem, que venham com saúdinha é o que importa. E outra amiga acabou o curso, é sempre bom, claramente não anda no Técnico e ainda bem pois precisamos de gente sã e feliz neste mundo, mesmo que sejam psicólogos. Só deus sabe a quantidade de estudantes que precisam de ajuda mental.

A mana lá está noutro escritório, a trabalhar que nem doida, e amanhã enquanto eu gozo a greve geral em casa como qualquer estudante ela vai bulir, cada um tem o que merece ahaha.

E estamos a entrar no meu mês preferido, Dezembro, nada parcial, pois é o mês em que faço anos e é o Natal e come-se chocolate e enfeita-se a casa. É bom, ainda há dias estive na minha antiga rua, em Lisboa, e recordei com saudade os tempos em que ansiava por ligarem as luzes de Natal no topo das árvores e nos candeeiros. Toda a rua passava a ter um cheiro caracteristico a Inverno, a frio, e a luz. Lá estava, toda enfeitada, e soube bem descer a rua como fiz durante 12 anos... pelo menos até à parte em que vi um autocarro atropelar um puto na passadeira, estava tudo bem.

Gosto desta época... acidentes com autocarros à parte.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

É bom ter quem nos acompanhe

Tenho-me vindo a confessar por escrito mais em privado, para mim própria, que publicamente. Tenho escrito muito, mas são confissões inconfessáveis e servem essencialmente para me aliviar os dias e para me transmitir perspectiva. Daí não escrever neste blog com tanta frequência, o que aliás tem sido o mote deste ano de 2010. É impressão minha ou foi um ano pouco blogoliterário?
E por isso peço desculpa a quem me costuma seguir.
A Isabel anda em exames e actuações e sei lá mais o quê, por isso também tem andado calada.
Vamos fazendo o que conseguimos para manter a actividade no blog, mas há fases em que temos de nos virar para nós.
Mesmo assim, volta e meia qualquer coisinha surge e espero que levem esses momentos como um pequeno presente.
Gosto de vocês (quem quer que vocês sejam).

Perdoar

Quando alguém nos magoa, a maior parte de nós considera que o passo a seguir é tentar esquecer.
Tentar apaziguar a dor, enfia-la dentro de um saquinho com uma data de pedras e deitá-la ao mar para ver se afunda e o coração alivia. Porque a dor corroí-nos as entranhas, tira-nos o equilíbrio e cega-nos de maneira que não conseguimos ver as coisas boas da vida, que se cruzam connosco todos os dias.
Há uns tempos atrás percebi que esse mecanismo de ultrapassagem das desilusões é rasteiro.
Um slipery-slow como dizem os americanos.
É muito fácil deixarmo-nos enganar por ele, pela face convidativa que ele transmite de que tudo fica encerrado lá longe, não se tem de lidar, não se tem de enfrentar, acabou.
Mas a verdade, é que as coisas só se ultrapassam se olhadas de frente e mais que esquecer, o que efectivamente encerra os assuntos é o perdão.
Perdoar é a nossa maior virtude.
Porque esquecer nunca se esquece verdadeiramente.
Mas perdoar é a maior virtude que o homem possui (se a souber utilizar), uma vez que tem o dom de transformar a memória (o maior handicap do homem) em páginas leves e irrelevantes do livro da nossa vida.
Mas exactamente por ser uma virtude, é de difícil alcance. Se fosse fácil não lhe seria dado tanta importância e valor. Chamam-lhe acto altruísta, mas quem vê altruísmo nisto, quase como uma concessão que se dá ao outro é porque olha de uma perspectiva errada.
O perdão é dos actos mais egoístas de todos. É egoísta no sentido em que decidimos travar o carro dos nossos sentimentos e inverter o sentido da marcha. Deixo de me afastar de ti e volto para ti. Ou de outra maneira, deixo de chocar contigo e volto a acompanhar-te lado a lado. E assim os eventos deixam de mexer connosco, a mágoa desaparece, a fúria esvai-se e a alma fica mais leve.
É egoísta porque transmite-nos maior bem estar que a dor provocada pela desilusão. E quem considera que a resignação e o esquecimento é que trazem os maiores benefícios está mais uma vez redondamente enganado. Quem perdoa pensa mais em si, no seu bem estar que no do outro. Porque consome mais energia não perdoar.
Obviamente isto só é verdade nos casos em que se estima ou estimou quem nos magoou e nos casos em que o objectivo é apaziguar uma actual relação crispada, que outrora foi serena. Nos outros casos não se aplica porque simplesmente ninguém quer saber de ninguém, é cá se fazem cá se pagam e siga a dança.
Mas voltando ao case-study: perdoar é uma virtude egoísta, no sentido em que nos poupa energia.
Em relação à outra parte pouco ou nada acresce, na medida em que o acto não desaparece, não nos ficam eternamente gratos pelo acto do perdão e uns dias depois tudo quase como se desvanece nas areias do tempo.
Ora tudo isto parece muito bonito, mas a dificuldade da virtude, o verdadeiro busillis, está no facto de que nem tudo é perdoável. E há que aceitar que estamos condenados a viver para sempre atormentados por certos actos praticados por certas pessoas, que simplesmente não conseguimos perdoar. E a desvantagem é somente nossa, na medida em que a vida dos outros corre exactamente da mesma maneira.
Leia-se que a impossibilidade de perdoar anda de braço dado com a inércia dos sujeitos candidatos ao perdão. Quem nada faz pouco consegue mudar. E o alvará do perdão fica permanentemente indeferido e a entidade que o passa fica para sempre com aquilo atravessado como um unfinished bussiness.Um - zero ganha quem feriu.
Mas pior são mesmo os casos em que há realmente acções em prol da conquista do perdão mas mesmo assim não há maneira de travar o carro. Aí o sofrimento é dividido, o resultado é um-um e um empate nos assuntos de corações desfeitos é sempre o pior resultado. Sofre quem não consegue perdoar, sofre quem não consegue o perdão.
Dizem que um desgosto partilhado é meio desgosto, mas nesse caso a partilha tem de ser por um terceiro, alguém que nos ampare a queda. Um desgosto partilhado com o alvo do desgosto dá dois e é um aumento de 100% de infelicidade no mundo. E para gente triste para basta a que existe.
Tantos anos depois começo a achar que não lhe consigo perdoar.
Resta saber se o sentimento vai ser partilhado ou não.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"I do!"

Cada vez acho mais que deveria haver na amizade o mesmo compromisso que existe nos casamentos.
As pessoas nas suas relações amorosas namoram uns tempos, conhecem-se e quando sentem que é para a vida decidem juntar os trapinhos e casam-se, ou então juntam-se mas com o objectivo "This is it".
Nas amizades as regras são muito menos definidas e em alguns casos a regra é a ausência de regras. São poucas as amizades para o bem e para o mal, na saúde e na doença, até sermos todos velhinhos e andarmos a juntar vodka no soro.
Há umas amizades que são só para as saídas e festas e jantares, outras que são só para as boleias, ou para quando é necessário emprestar alguma coisa, ou dar uma explicação.
E há também amizades que só parecem funcionar quando envolvem terceiras, quartas e quintas partes. São as chamadas amizades de grupo. Em teoria são muito interessantes, mas na prática cada vez mais as considero perigosas. Mas existem aos pontapés. Duas pessoas cuja relação só parece existir quando determinado grupo se junta, e que ao invés, falha na sua dualidade. Pessoas que não se juntam a dois, mas que se consideram amigas a 5. Discutivel esse conceito de amizade.
Dizem-me que tenho de começar a aceitar que certas amizades que fiz ao longo da vida não vão durar e que está tudo nos pequenos sinais. Não é mesmo difícil de perceber se uma pessoa fica feliz por nos ver. Temos é de andar de olhos abertos, o que na maior parte das vezes, não é o caso.
- "Aceitas ser meu amigo?" Sim ou sopas.

sábado, 23 de outubro de 2010

Amizades (im)perfeitas

"Heaven forbid you end up alone, and don't know why."

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Amizades: Sofás e outras peças de mobiliário

Nos últimos anos têm sido muitas as despedidas que tenho feito aos amigos que se cruzaram comigo pelo caminho. Toda a pompa e circunstância, de jantares e malas e aeroportos de uma maneira ou de outra já me são familiares. Mudam os destinos e a extensão temporal mas lá vai mais um para fora durante 6 meses, um ano, quatro, cinco, volto talvez em 2012 depois dos Jogos Olimpicos, ou nunca quem sabe. Paris, Berlim, Praga, Londres, Moçambique, Austrália, Noruega, Bruxelas, Angola, Singapura, Argentina, Brasil, perdi a conta ao pessoal que conheço que nos últimos tempos se espalhou pelo mundo, muitos deles nem sei bem onde param neste preciso momento. Uns hão-de voltar um dia, muitos só para poderem partir outra vez.
Ora neste seguimento, a amizade é uma concepção estranha, que constantemente provoca sentimentos contraditórios. A velha máxima do "fico tão feliz por ti" nem sempre soa a sincero quando as prioridades das vidas se vão alterando, a ritmos diferentes de parte a parte, quando um lado começa a ter menos tempo que o outro, principalmente aproximando-se as horas das despedidas.
Era tudo muito mais simples quando andavamos todos na escola, quando os nossos amigos eram os 30 da nossa turma, com quem estavamos todos os dias e de quem iriamos ser amigos para o resto da vida. Crescer é demolidor de todos esses castelos que se criaram aos longo dos anos, o tempo arrasa com esses laços, porque as vivências passam a ser outras, os interesses outros, o circulo ao mesmo tempo que se alarga pelas novas pessoas que se conhece restringe-se e muda de centro. Porque passamos a ter noção do tempo e do pouco tempo que há para fazer o que tem de ser feito, e começamos a visitar menos os lugares que deixamos de fora do circulo. Torna-se complicado gerir idealmente todos aqueles que queremos de alguma forma guardar, que seja, por disparidades de horários, de moradas, de hemisférios. E as partes desiquilibram-se, acusam-se e o que a distância não destroi começa a ser corroido pelo sentimento de abandono e de mágoa.
O truque é encontrar um ponto de equilibrio e ao mesmo perceber que não conseguimos guardar todos aqueles que passaram pela nossa vida e que mesmo os que queremos guardar têm alturas em que estão mais próximos de nós que outras.
O meu Sábado foi de reencontros.
O plano original era trocar dois dedos de conversa entre três garfadas de comida, com uma soon-to-be geneviense, em jeito de preparação para a verdadeira despedida rumo à aventura de 4 anos de douturamento. Voltar ao lugar de sempre, ouvir-lhe os medos e os sonhos, planear o auxilio na instalação. A amiga da minha irmã que ficou minha amiga também, companheira de férias e festivais e noites e que foi a primeira a ficar elástica com o passar do tempo. Passam meses que não a vejo, que não bebemos um copo ou um café. Até que de repente surge a ideia num momento qualquer e é como se ontem tivessemos vindo do Sudoeste e ainda estivessemos a cuspir pó.
Mas eis que de repente na mesa de trás do restaurante, vejo uma cara conhecida dos tempos em que ainda usavamos saias de pregas e colans com flores, faziamos herbários aldrabados e andavamos de sobre-e-desce. Tinham passado 10 anos e encontravamo-nos ali, onde provavelmente fizémos o último jantar de turma. A conversa contudo já não era bem a mesma, porque dos 14 aos 24 tudo mudou em nós. Mas não há motivos para ter pena, era inevitável.
Comecei a pensar que efectivamente, trago pouca gente desse tempo comigo, mas são acasos da vida. Os que trago de mais longe, cruzaram-se comigo já só no secundário, mas preenchem a necessidade que é suposto ser levada a cabo por aqueles que conhecemos na infância.
É importante manter pessoas que nos conheceram quando ainda não eramos nós, que cresceram connosco, que além do fundo da nossa alma conhecem também as paredes, porque ajudaram-nos a contrui-las.
Para essas pessoas que são 3 tirei uma hora antes do jantar. Por mera coincidência, sem adivinhar que iria ter um reencontro com o passado umas horas depois. Mas foi o que bastou para, perante aquela road trip down memory lane, não me sentir afundada em nostalgia, e sentir que tudo é efémero e passageiro na nossa vida e que todos os que se cruzam na nossa vida, estão condenados a desaparecer, mais cedo ou mais tarde.
É um facto que não os vejo todos os dias, nem mesmo todos os meses. A maior parte das vezes é um martirio para conseguir combinar qualquer coisa. Mas são o meu sofá. Por muito atarefada que seja a minha vida, por muito que só pare em casa para comer em pé e dormir na cama, lá está ele, no melhor canto da casa. E eu sei que de cada vez que me for sentar, vai ser como da primeira vez e não me vou querer levantar.
Ora resumindo, concluindo e baralhando, são essas amizades/peças de mobiliário que se querem guardadas. Aquelas que já nos aceitaram como somos, depois de anos de conflito sobre defeitos e feitios. Aquelas que reconhecem que o que temos de mau é o revés do que temos de bom e é isso que nos faz bonitos. O paralelismo, a simetria. Um não vem sem o outro e é mesmo assim.
Essa aceitação engloba mudanças geográficas e de fusos horários dentro do próprio país. Já percorri esse caminho com eles e com ela, e por isso tenho a certeza que nos guardamos mutuamente. Aquele capuccino ao som da chuva virados para Belém e mais tarde a conversa durante o jantar valem ouro na minha vida.
E tudo isto se aplica também a um sorriso durante uns minutos à porta da Igreja, entre novidades de apertar o coração, também debaixo de chuva. É com ele que eu também pinto o meu sofá, mesmo que a tinta tenha de ser importada, no próximo ano, de Moçambique.